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03 Outubro 2009

O descaso com a lona cultural Carlos Zéfiro

As lonas culturais no Rio de Janeiro são um dos melhores projetos para promover atividades culturais nas zonas suburbanas da cidade. Mas estão praticamente jogadas às traças. O espaço de Anchieta, um entre os 10 que começaram a ser criados em 1999, leva o nome de Carlos Zéfiro (Alcides Caminha nasceu e cresceu na região). Mas já não transparece o mesmo vigor que havia no dia da inauguração, com exposição de fotos de Caminha e show da cantora Marisa Monte acompanhada da Velha Guarda da Portela. Quando visitamos a lona Carlos Zéfiro, em 2008, era notável a condição precária da estrutura, embora ainda houvesse shows e oficinais para os moradores locais.

No início de 2009, o jornal carioca O Dia informou que quatro lonas culturais foram interdidatas pela Defesa Civil do município. Àquela época, os moradores de Anchieta, Realengo, Guadalupe e Maré perderam importantes espaços de cultura. As lonas tiveram de ser fechadas porque representavam perigo aos frequentadores. "Além das centenas de furos e remendos, havia afundamento da arquibancada de madeira com várias partes quebradas e estrutura de ferro comprometida, rachaduras nos tetos dos banheiros e fios desencapados", descreveu a reportagem do jornal.



A solução seria a liberação de orçamento para reformas, no valor de R$ 800 mil, e o lançamento de licitação pela Secretaria Municipal de Cultura. Até agora, nada foi feito. Em agosto de 2009, o diário O Globo publicou que as lonas ainda esperavam reformas. O início das obras dependia apenas de uma assinatura do prefeito Eduardo Paes. A notícia era de que a lona Carlos Zéfiro só voltaria a ter shows no fim do ano, e que as obras deveriam começar até o fim deste mês. Enquanto nada era feito, a umidade afetou as arquibancadas da lona, que começaram a ceder.

No mês passado, o escritor e jornalista Vagner Fernandes mostrou em seu blog, no portal Sidney Rezende, que a secretária de Cultura do Rio, Jandira Feghali, não estava preocupada em renovar os contratos com as associações que administram as lonas, vencidos desde março de 2009. Para Fernandes, a estratégia da secretaria em abrir concorrência pública para a gestão das lonas vai burocratizar a administração e afastar a participação de representantes das comunidades.

O jornalista lembra que a ideia das lonas iniciou com um grupo de ativistas culturais de Campo Grande, que pediram à prefeitura a doação de uma das lonas verdes e brancas instaladas no Aterro do Flamengo para a realização da Eco-92, até então abandonadas no Riocentro. Agora, o impasse é claro. As comunidades querem os espaços de volta, mas os governantes se enrolam para decidir o futuro deles e parecem não entender a necessidade de haver condições para projetos culturais surgirem de maneira espontânea. Ainda mais em áreas carentes de iniciativas assim, e longe (bem longe) dos teatros e cinemas do centro e da zona sul.

O descaso com as lonas é mais um dos episódios que criam obstáculos para a decolagem de verdadeiros artistas, dos quais o Brasil está cheio, e que sobrevivem muitas vezes do próprio bolso, sem receber o devido reconhecimento. Um exemplo é Carlos Zéfiro. O pseudônimo criado por Alcides Caminha saiu de Anchieta e rompeu as fronteiras nacionais. Mas sua arte nunca lhe rendeu mais do que alguns trocados.

1 Comentário:

Julio Canuto disse...

Boa tarde!

Excelente matéria e péssima notícia...

Hoje, em janeiro de 2010, em que pé andam as lonas culturais? Houve novo contrato para administrar? Estão acontecendo atividades nas lonas? Em quais?

ABraço,

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